• Bárbara Alves

Vinicius Allencar e a sua sobrevivência por meio da arte

Atualizado: Jun 20

Morador de São Gonçalo, Vinicius usa as suas pinturas para mostrar outras possibilidades para a juventude negra carioca



Vinicius Allencar é pintor e habitante do Rio de Janeiro.


Nascido em Itaboraí, o artista visual mora em São Gonçalo e aos 24 anos, chama atenção na internet pelas suas produções. Seu feed do instagram é repleto de obras, que abordam temas ligados a sua vivência nas periferias cariocas, como a música, o esporte, a negritude e a luta contra a entrada da juventude no mundo do crime.


O símbolo da Nike também aparece com frequência no seu trabalho, pois a marca possui uma forte influência em seu cotidiano, principalmente entre os jovens.


Vinicius, que teve a seu sonho de seguir no esporte interrompido pela violência urbana, utiliza acrílica e tinta a óleo para passar a visão aos mais novos de que o crime não compensa e de que há outras possibilidades, apesar das alternativas limitadas oferecidas pelo sistema.


Leia a seguir a entrevista concedida por Vinicius Allencar ao Descolonizarte:


Como você começou a desenhar?

Na real, eu não me lembro quando eu comecei a desenhar. Eu me lembro que eu sempre desenhei e sempre gostei de desenhos. Quando eu era novo e estava na escola, eu já fazia alguns desenhos que os outros alunos tinham dificuldades para fazer. Tipo, na aula de artes eu demorava horas para terminar alguma coisa e sempre fui o mas interessado da turma na aula de artes. Isso permaneceu até os últimos anos de escola.


Quais são as suas principais inspirações para produzir?

Eu costumo dizer que a minha inspiração sou eu e eu sempre vou dizer isso pra todo mundo que me perguntar. A minha maior inspiração sou eu, tudo que eu já vivi, tudo que eu já passei em relação a arte e em relação a outras coisas. O que eu vivi no crime, o que eu aprendi no crime, o que o meu pai viveu dentro do crime.


Então as minhas inspirações são basicamente essas: os amigos que eu perdi e os amigos que eu fiz dentro do crime, a minha resistência como artista para não desviar e voltar para aquele lugar, a minha família, a minha mãe. É basicamente isso, as minhas inspirações são coisas que estão próximas de mim, ao meu redor. Não tenho tanta referência fora da minha realidade.


O símbolo da Nike aparece com frequência nas suas obras mais recentes. Qual é a sua ligação com a marca?

A minha ligação com a Nike é simplesmente um processo natural de evolução. Eu lembro que quando eu era criança até os meus 13 anos, o meu pai ele me vestia exatamente igual a ele, do jeito que ele andava. Ele só usava Nike e eu não entendia o porquê ele usava aquilo, então eu sempre usei Nike. A minha ligação com a marca vem do meu pai. Tem muita gente que acha que é uma parada pra chamar a atenção da marca pra querer patrocínio, mas não tem nada a ver com isso. É uma parada que é natural, que está na minha vida desde que eu me entendo por gente e que vai permanecer.


Eu tento passar isso pra minha arte, porque faz parte da minha vida também. É uma representatividade que ela tem pra mim e eu gosto de poder passar isso, porque na favela os jovens usam Nike, eles gostam dessas marcas, não só da Nike mas de outras. Tem uma identificação muito grande pra quem mora em periferia, pra quem mora em favela. É uma parada que está no nosso cotidiano.


Em 2018, você pintava rostos e fazia colagens. Ao longo do tempo, você foi desenvolvendo o seu estilo, que hoje já está mais consolidado. O que mudou nesses dois anos de produção?

Em 2018, eu vivi um dos melhores e um dos piores anos da minha vida em relação a arte, porque eu estava com uma fome enorme de poder produzir, mas eu não tinha nada de material. Aquilo estava me torturando, então eu tentei relatar isso nas minhas obras da época, tanto na colagem, quanto nos rostos que eu fazia.


Os rostos todos eles estão chorando, mas são choros de felicidade, não é choro de tristeza, de angústia, nem nada disso. É um choro de felicidade, um misto de sentimento. Eu relatava a tristeza pelo choro, mas na real era felicidade, que era o momento que eu tava vivendo. Tentei passar isso e as colagens também foram uma forma de abranger, de pesquisar novas coisas, de querer entrar em novos lugares. Eu sou apaixonado por colagem, mas não me vejo mais fazendo colagem.



Acredito que foi uma fase que foi muito boa, aprendi muita coisa como artista, mas que eu não voltaria atrás não. O que mudou nesse tempo é que agora eu me conheço mais como artista, eu conheço mais o que eu tenho que passar, o que eu gosto de passar, o que eu gosto de pintar, o que eu gosto de representar e é mais ou menos isso. Não teve uma mudança radical no meu estilo de pintura, porque a minha visão sobre o que eu queria passar com a minha arte sempre foi isso: sempre foi vivência, sempre foi essas coisas, então não teve uma mudança brusca.


O esporte é um tema bem frequente nas suas últimas obras. De onde saiu a sua motivação para representar essa temática?

De mim mesmo. Eu já fui jogador de futebol, mas meu sonho foi interrompido por uma bala perdida que atingiu meu pé direito, o pé que eu chuto. Então tive que largar o futebol e represento isso nas minhas artes, porque o esporte assim como a arte é uma ferramenta de transformação social. A visão é essa: passar isso na minha arte para os menor pegar a visão de que há caminhos, há possibilidades.


Quais artistas do Rio de Janeiro e fora dele que você gosta e acompanha?

Eu conheço poucos artistas. Acredito que eu tenho uma identificação maior por artistas pretos e de favela. Eu gosto do Pegge, do Mayk Brambilla e também gosto de artistas que não estão totalmente ligados a pintura, por exemplo o Pivete, que trampa com música. Acho que ele tem um enorme potencial. Tem o Wallace Pato e o Leall que são inspiradores e o Junin Navi, o PL, o finado WL, o Maykão, o Diogo, todos os meus amigos da rua 7 do Itambi.


Você já produzia na época em que estava ligado ao crime?

Eu produzia antes, durante e depois de sair. Foi uma coisa que sempre esteve presente quando não era em tela ou papelão, eu fazia graffiti na rua. Nunca fiquei totalmente afastado da arte, independente do momento que eu estava. Os bagulhos aconteciam e eu pintava. Se os bagulhos não acontecia, eu pintava. Era inspiração e a falta dela a todo tempo, mas algo que sempre esteve lado a lado comigo.


Quais são as suas expectativas para o futuro da sua carreira?

A minha expectativa para o futuro da minha carreira é não ter expectativa. Eu quero estar pintando constantemente, eu quero estar evoluindo, eu quero estar criando, eu quero estar ganhando o devido reconhecimento que eu sei que eu mereço. Não é questão de ego, não é questão de nada disso. É questão do próprio reconhecimento como artista, do que eu faço, da responsabilidade que eu tenho.


Então eu acho que é eu continuar fazendo o que eu estou fazendo no momento, produzindo com responsabilidade, com respeito, com amor, com visão para as coisas e é isso. Acredito que não é muito a questão do sucesso como artista. Acho que é mais a questão do respeito como artista, como homem, como favelado, como filho de mulher preta.


Então, eu acho que é mais ou menos isso. Não é muito uma questão de holofote, mas vindo o reconhecimento da forma que ele vier pra mim vai ser muito importante e satisfatório. A gente trabalha pra isso: por conquistas e satisfação pessoal.


Acredito que as coisas vão vir conforme a gente mereça e conforme a gente busque, então não tem muito mistério. Vai vim o que eu mereço.



Siga Vinicius Allencar nas redes sociais

Instagram: https://www.instagram.com/allencartes/

Twitter: https://twitter.com/muitocria


  • Branca Ícone Instagram
  • Ícone do Facebook Branco

© 2019 por Descolonizarte