• Bárbara Alves

O vigor de Mayara Amaral

Reunindo técnicas diversas, Mayara Amaral transita entre o figurativo e o abstrato abordando a feminilidade preta


As produções de Mayara Amaral exploram a sexualidade feminina e diversas questões relacionadas a experiência de mulheres pretas, usando cores e formas vívidas. Além disso, ela também explora as possibilidades presentes no abstrato, pois segundo a artista essa é uma forma de alcançar locais em si, íntimos e desarmados.

Uma de suas fortes inspirações na criação de personas, cenários e composições é a a cultura urbana, em especial o sound system e o punk. Mayara também trabalha com xilogravuras, aquarelas e utiliza diferentes materiais artísticos como o kraft, canson, acrílica.


Moradora da Vila Mara, extremo leste de São Paulo, a artista possui formação em artes visuais e acredita no potencial da educação para a transformação da sociedade. A música também exerceu um papel fundamental no seu desenvolvimento pessoal, pois desde pequena, Mayara frequentava festivais de reggae, além de participar ativamente desses eventos.


Aos 27 anos, Mayara Amaral é artista multidisciplinar, educadora, trancista e mãe, e os seus trabalhos artísticos despertam a atenção do público devido ao vigor presentes neles, que resultam da composição estética feita pela artista, que reúne cores vibrantes, o protagonismo negro feminino e um chamado para as questões subjetivas.


Confira a entrevista concedida ao Descolonizarte:


Um dos temas abordados com frequência nas suas produções é o corpo feminino preto. Como e porquê você decidiu trabalhar com essa temática?


Graças a minha criação sempre vi o corpo com muita naturalidade. Corpo preto, corpo gordo e a nudez também. A primeira vez que fiz aula de desenho com modelo vivo, entendi ainda mais que nosso corpo não é e nem tem a intenção de ser isca ou fruto de um imaginário puramente sexual. A partir disso quis muito me dedicar ao estudo de corpos e tudo que cercava o gestual, principalmente corpos pretos não magros, seja por questões pessoais e íntimas em relação a meu próprio corpo ou por todas minhas amigas, clientes e mulheres pretas que tendo ou não um histórico de auto depreciação do corpo anseio que se vejam de uma forma positiva e plural.


Mistério da criação (2020), Angelina (2020), e Puerpério (2020)


Você também possui produções com materiais como o canson e o kraft, além de produzir com tinta para tecido, acrílica, guache e spray. Como é produzir com esses materiais e quais as diferenças entre eles?


O canson foi o primeiro papel de "gramatura diferente" que eu tive acesso e isso me possibilitou experimentar outras tintas e técnicas, como o nanquim, por exemplo onde passei a entender melhor técnicas aguadas. Gostei muito dessa pergunta porque tudo nela se encaixa (risos). O Kraft eu uso por gostar da textura que fica e a possibilidade de trabalhar com grandes proporções também como no caso dos lambes que faço no Kraft e ficam com uma finalização muito interessante no muro pela questão da cor natural do papel.


Papel canson, papel kraft e spray


Passei a testar guache e tinta pra tecido com técnicas aguadas na tentativa de me aproximar de resultados pro aquarela que inclusive é um material que eu não pude aprender nas minhas formações e fui pesquisando no Youtube. O spray entra como referência vindas pixação, tag e grafite, rolê que até hoje tenho muitos amigos no meio. Fiz parte de uma família mas nunca fui muito do apetite por questões de várias abordagens policiais terem me traumatizado ao longa da vida.


A xilogravura também está presente no seu trabalho. De que forma você se aproximou dessa técnica e quais são as vantagens e as dificuldades encontradas com esse tipo de produção?

Conheci xilogravura na minha licenciatura e me aproximei com muita facilidade dessa técnica. Toda madeira que eu via já imaginava trabalhando nela, logo, no preparo da matriz eu posso dizer que não tenho grandes dificuldades acredito que a parte da impressão me exige muita atenção e paciência afinal não somos impressoras e por mais que a matriz esteja impecável é comum de início a impressão não ficar do jeito que a gente quer.



Não creio que seja uma super dificuldade mas o artista precisa ter um certo cuidado com o uso das ferramentas em geral goivas (materiais que usamos pro preparo da matriz) pra não ter algum acidente de trabalho nesse caso entram dois fatores bastante importantes: o tipo de madeira usada e o manuseio da ferramenta)


Você tem formação em artes visuais, já trabalhou com educação e música. Como esses processos tiveram interferência na sua produção artística?

Na real, eu sempre quis lecionar e gostei muito das trocas que pude ter em sala de aula, mesmo que o molde de educação que temos ainda nos limite. Acredito muito que a educação é uma grande chave caso queiramos mudar o amanhã e essa visão me influencia a ser didática em tudo que me proponho a fazer.


A música sempre esteve presente na minha vida desde minha primeira infância no terreiro, até os 8 anos vividos na igreja, onde fiz aula de canto, parte de grupos de louvor, coral, fazia teatro e várias fitas que foram muito importantes na minha caminhada. Sou grata a minha família por terem sempre me dado a prioridade de estudar, mas com a mente e maturidade que tenho no agora não teria entrado no curso por questões financeiras e de carreira mesmo. Hoje vejo tudo de outra maneira mas é isso vivendo e aprendendo.


Algumas das suas referências são artistas como Kara Walker, Emma Amos, Daniela Yohannes e Elizabeth Catlett. Quais foram as principais contribuições dessas artistas para a sua obra e o que mais te influencia?

Black Maternity, Elizabeth Catlett (1959)

Todas no geral são mulheres mais maduras com abordagens bem diferentes uma das outras.

Daniela Yohannes sempre chamou minha atenção nas formas, personagens de tom de pele escuro e nos cenários de suas obras. Já Emma Amos com as suas cores fortes, poses e fundos.


Também sou fascinada por todos feitos de Kara Walker, desde as esculturas e projeções até a série de silhuetas que explora racismo, violência, sexualidade e a historia da escravidão nos Estados Unidos. Elizabeth Catlett me faz refletir maternidade e afetividade dentro da arte.


Me senti acolhida ao ver uma mulher negra produzindo sobre questões tão transformadoras como o gerar.

Ela e Kara Walker são 2 das minhas maiores influências artísticas.

Resurrection Story Without Patrons, Kara Walker (2017); Sand Tan, Emma Amos (1980); Sem Título, Daniela Yohannes (2016)


Recentemente, você começou a produzir mais obras abstratas. O que te motivou a realizar essas produções e como está sendo trabalhar com o abstrato?


Eu comecei a produzir seguindo essa pegada ano passado, porém só esse ano me senti segura pra mostrar mais e lançar nas telas. Eu sinto que é a forma mais pura de demonstrar meus sentimentos. Observo que as pessoas no geral esperam muito pelo figurativo, anseiam tanto que mesmo que você faça algo abstrato ainda procuram por figuras, seja nas formas, cores ou traços.


Série Imensidão (2020): Corrente, Faísca e Onda


Mas independente do outro, eu me sinto muito a vontade ao fazer esse tipo de arte, pois acesso locais em mim que são muito íntimos e desarmados. Como diz a música de uma das minhas bandas favoritas me sinto livre da maldade, livre da angústia, livre da dor pintando lugares que eu gostaria de estar, coisas que eu gostaria de comer, sonhos que eu gostaria de realizar.


Você também é muito influenciada pela subcultura, em especial pelo rolê punk e pelo sound system. Como você entrou em contato com essas culturas e de que forma elas influenciam o seu trampo?

Eu conheci pessoas envolvidas na subcultura e o rolê punk através do meu amigo Cleber e quando cursamos um técnico de moda, no geral eram amigos da quebrada dele que viraram meus amigos também.

Sempre achei muito interessante a música, o visual, mas principalmente as ideologias políticas onde passei a ponderar a minha revolta e redirecionar todo meu ódio sem me autodestruir, que infelizmente é o que muitos semelhantes meus faziam na época.


A relação com Reggae já é muito antiga na minha vida, meu primeiro festival de reggae eu tinha 5 anos de idade, desde então vi muitas bandas e cantores nacionais e internacionais. Participei de muitas sessões desde 2009 até o ano passado inclusive cantei no lançamento das caixas do Aqualtune sistema do som aqui na zona leste.


Posso dizer que o reggae no formato sound system provavelmente é a cena musical que eu mais estive presente, onde pude vivenciar momentos históricos e pesquisar tudo que me encanta, de Jamaica a UK, desde as capas do icônico Wilfred Limonious um dos artistas jamaicanos mais lendários até os icônicos flyers e suas composições. Seja ska, oldies, roots, steppa, rub a dub ou dancehall falou de sistema de som já me sinto me sinto em casa.

Wilfred Limonious (Jamaica, 1949)


Como já disse anteriormente tudo que está minha volta influência no meu trabalho, tento passar através de personas, cenários, cores e frases todo repertório de vida que tenho e nitidamente a música ocupa muito esse local de inspiração.


Como a sua produção está sendo afetada na quarentena?

Por incrível que pareça eu estou conseguindo produzir mais do que em outros anos.

No começo eu estava conduzindo muito melhor os meus dias pois consegui o auxílio, fechei agenda de tranças e estava me dedicando somente a minha filha, minha casa e meu trabalho. Porém sem creche as demandas de mãe e dona de casa tem tomado grande parte do meu tempo. Agora, eu abri minha agenda então está sendo mais complicado, porém estou com a mente sã e de toda forma estou positiva.


Quais são os seus planos para o futuro?

Por hora o plano é se profissionalizar cada dia mais o meu trabalho no sentido de organização para que eu consiga colher frutos e não me sentir uma artista frustrada/desvalorizada. Materializar as minhas ideias na área de produção de imagem, produzir mais editoriais que dei início o ano passado ao lado de dois amigos artistas na Fractal Art que é nosso laboratório de criação e posso adiantar que minha próxima série é sobre uma das minhas maiores inspirações de vida inclusive citada nessa entrevista.


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