• Bárbara Alves

O Afrofuturismo de Lya Nazura

Atualizado: Jun 20

Aos 22 anos, a artista é um dos nomes do afrofuturismo brasileiro, além de ser autora de trabalhos que relacionam representatividade negra aos animes japoneses


Lya Nazura é uma das grandes representantes do afrofuturismo nas artes plásticas brasileiras.


O movimento criado durante os anos 60, nos Estados Unidos, prega a união de elementos ficcionais com a temática da diáspora africana para criar novas perspectivas sobre a realidade da população negra.


Nos Estados Unidos, nomes como Sun Ra, Octavia Butler, Janelle Monaé, Jean-Bastist Basquiat são responsáveis pela difusão do movimentos em diferentes frentes artísticas como música, pintura e artes visuais.


No Brasil, mais especificamente na Zona Leste de São Paulo, Lya Nazura dá continuidade ao legado no movimento. O seu trabalho reúne personalidades da história negra a estética afrofuturista, criando uma identidade visual única e fortemente influenciada pela cultura pop japonesa.


Lya também acumula passagens pela Red Bull Station, Perifacon e pela Ocupação Ermelino Matarazzo, além de ser autora de pesquisas focadas na representatividade negra nos quadrinhos e no cinema.


No início, seus trabalhos abordavam a representatividade negra com enfoque na espiritualidade, simbolizada em seus desenhos pelo terceiro olho. A marca ainda permanece nos trabalhos mais recentes da artista, já que a sensibilidade espiritual é um tema recorrente nas produções de Lya.


Leia a seguir a entrevista concedida por Lya Nazura ao Descolonizarte:



Em 2018, você realizou produções na Ocupação Cultural Ermelino Matarazzo. Como foi participar desse movimento e como isso contribui na sua jornada dentro da arte?


Foi a minha primeira exposição coletiva. Eu fui convidada pelo Felipe Urso para compartilhar o espaço da Ocupação com várias outras mulheres artistas. O processo foi bem gostoso, levamos nossas obras, colocamos lá na ocupa e nós, as artistas que estavam expondo, nos conhecemos no dia da abertura. A ocupa sempre foi um polo de referência pra mim, é um lugar que eu me sinto em casa e abraçada pelos artistas. Posso afirmar que esse espaço é um dos maiores articuladores culturais que temos na zona leste de São Paulo, todos os artistas que participam e propõem atividades lá são referências enorme pra mim: Raabe, Felipe Bit, Karine Guerra, o próprio Felipe Urso, Douguinha são impulsionadores, valorizam a expressão local e quebram muita a ideia de arte centralizada.

Você já utilizou acrílica, nanquim, posca, além de produzir aquarelas e ilustrações digitais. Qual material que você prefere manusear e qual a diferença entre as produções dos trabalhos físicos e virtuais?


Minha história com a materialidade está muito relacionada a precariedade mesmo, porque materiais artísticos são caros. Hoje tenho muito domínio com a nanquim porque ela é um dos materiais mais baratos para se produzir, e era o que eu tinha dinheiro pra comprar na época que comecei. Eu sempre desenhei com nanquim, mas como trabalho com design, tenho bastante conhecimento sobre Photoshop, software que eu uso pra fazer minhas ilustrações. No início, eu achava que meus trabalhos digitais eram mais comerciais que os manuais, e depois de um tempo refletindo sobre minha própria produção, é extremamente coerente utilizar de tecnologias digitais para desenvolver criações que abordam questões como cyberpunk e o afrofuturismo. É uma questão de materialidade mesmo, e hoje eu me sinto livre para fluir não só nos materiais, mas nas linguagens artísticas. A gente às vezes tem a ideia de que precisa ser ilustrador, ou pintor, ou cineasta, etc, quando na verdade a arte é bem mais ampla e interseccional do que o mercado estabelece.


Em 2019, você participou do Red Bull Station e do Perifacon. Como foram essas experiências?


A experiência na ocupação da Red Bull foi uma surpresa, uma das minhas felicidades foi dividir esse momento com minha companheira de vida Helena Sayuri. Nossa proposta focava em estudar e imergir de forma sensível nas conexões de ancestralidade entre as nós, mulher preta e amarela, e pautar questões como solidariedade antirracista.

Sair do extremo leste para ir ao centro é extremamente diferente. Quando fiz isso na ocupação do Ermelino, estava do lado de casa, a familiaridade que nosso corpo sente é bem maior, a gente é constantemente educado para entender que esses tipos de ambiente não são nossos, e acabamos entrando neles com uma sensação que a qualquer momento iremos passar uma situação de extremo desconforto. A ocupação serviu pra reprogramar algumas ideias, me fazer amadurecer no sentido de trabalhar com marcas, já que causou uma visibilidade muito grande para o nosso trabalho. O Perifacon foi o oposto, já que a primeira edição aconteceu no extremo sul de São Paulo, que mesmo sendo outra quebrada, a sensação de casa é bem mais presente. Perifacon foi uma experiência única e marcante pra que meu trabalho virasse o que ele é hoje, além de participar do beco dos artistas vendendo meu trabalho, eu também participei de uma roda de conversa discutindo representatividade negra nos quadrinhos, pesquisa que dediquei meu TCC, ao lado de pessoas incríveis como a Marília Marz, Robson Moura e Marcelo D'Salete, referência nacional para quadrinistas e artistas em geral que apoiam racialidade.


Já em 2018, você produziu uma série de desenhos retratando a ancestralidade negra. Quais foram as suas motivações para realizar essa série?


Essa série foi exposta na exposição da Ocupação Matheus Santos, eu estava muito aflorada espiritualmente, e isso é sempre natural pra mim. Eu estava querendo fazer estudos de retratos que ao invés de falar sobre como é o ser carnal das pessoas, representassem seus divinos espirituais. Uma visão mais intrínseca do que só desenhar pessoas, entende? Desenhar o que há por debaixo dos panos, por isso a questão do terceiro olho, não é só sobre olhar pro mundo, é conseguir enxergá-lo através da sensibilidade espiritual.




Você também já produziu uma releitura dos personagens clássicos do Naruto, unindo os elementos da série a atores negros de destaque como Lupita Nyong'o, Michael B. Jordan e Donald Glover. De que forma você chegou nesse conceito e como foi a recepção das pessoas que acompanham o seu trabalho?


Esses trabalhos são mais leves, entende? Eu quero com eles mostrar dualidades minhas, tenho partes muito profundas e densas, que me conectam com coisas muito maiores do que eu, mas eu sou muito o riso. Eu simplesmente amo Naruto, pra mim é uma das melhores coisas já produzidas pela humanidade, a nível estético e conceitual, e quando a gente trabalha com questões de racialidade há uma necessidade em ser sempre sério, a não rir. A gente precisa estar sempre tão armado e pronto pra luta que esquece de nossos olhares mais leves pro mundo, mais doces, e eu não quero que o racismo me torne uma luta, que eu nao consiga viver minha vida sem rir, sem amar, sem sentir como qualquer ser humano complexo, sem viver meus dilemas fúteis, que também fazem parte de mim. E foi tudo muito espontâneo, eu estava fazendo um estudo porque tinha pego a mesinha digitalizadora emprestada, e fiquei apaixonada pela foto de referência que usei do Childish Gambino, quando eu tinha acabado de terminar o rosto me surgiu: e se eu colocasse uma bandana de Konoha bem aqui… E calhou de dar certo, foi super bem aceito, eu sempre rio muito porque minha cabeça faz essas analogias naturalmente, e eu comecei a alimentar esses pensamentos, depois desenhei Lupita e o B. Jordan pra dar continuidade a série mesmo, o time 7 que Naruto participa.




O Afrofuturismo também está presente nos seus trabalhos. Você já produziu releituras da Angela Davis, do Sabotage, e mais recentemente dos Racionais Mcs, que se popularizou na internet. Como foi o processo de produção desses trabalhos e quais foram as principais mensagens que você quis transmitir ao unir personagens importantes da história negra ao afrofuturismo?


Tem uma frase que o Black Alien diz em Respeito é Pra Quem Tem junto com o Sabotage que é "homens do passado pisando no futuro vivendo no presente", e isso pra mim representa o afrofuturismo que eu acredito, não é uma questão de estética, é uma questão de tecnologias epistemológicas de conhecimento produzidas e não reconhecidas, não há uma mensagem única, porque cada um desses trabalhos evoca um tipo de pensamento diferente, tanto pra mim quanto pra quem observa. Quando estava estudando o cyberpunk, fiquei apaixonada pelo conceito distópico de tecnologia, sobre a crítica social que ele trás consigo, e com mais pesquisas e eu achei o movimento afrofuturista, que tem uma pegada de cyberpunk mas com foco nos pretos eu surtei de felicidade. Eu uso o afrofuturismo além de construção de uma nova estética como uma forma de descolonizar conhecimentos, e pra evidenciar a importância de produções que vieram antes de mim.




Além do seu trabalho com pinturas e ilustrações, você também já trabalhou com fotografia e também posta textos na sua conta do instagram. Você pretende realizar mais trabalhos com fotografia e expandir sua escrita?


Sempre li muito desde nova, então comecei a escrever super cedo. Eu lembro de querer escrever um livro quando tinha 11 anos de idade, de desenvolver e criar minhas histórias, lembro também que meu primeiro livro tinha como personagem principal uma menina negra. As narrativas sempre foram presente em mim, eu tenho essa necessidade de contar histórias, nao é a toa que estudo cinema, e que meus desenhos sempre partem de uma experiência que marca a minha história, todos eles são narrativas que fazem muito sentido pra mim, eu queria poder ter mais coragem pra mostrar tudo que escrevo, já que isso faz parte do meu processo criativo, toda vez que eu preciso criar algo, eu escrevo, escrevo sobre como me sinto, sobre o que quero, sobre como aquilo me impacta. Agora a fotografia é um grande desafio, das vezes que a usei foi pra compor ilustrações, a foto pela foto pra mim, artisticamente, nao acontece, nao consigo pensar como fotógrafa, não consigo ver a câmera para registro como extensão de meu olhar, me falta deleite e imersão nesse processo para que isso aconteça, mas ainda sim, estudo regras de composição e tenho vários artistas fotógrafos como referência, e admiro muito eles criarem com uma linguagem que quando produzo ainda não me sinto inteiramente satisfeita, a única forma que eu consigo pensar fotografia é no cinema.


Quais são as suas metas e planos para o futuro da sua carreira?

Fazer muitos filmes, contar muitas histórias que existem dentro de mim de diversas formas. Ando estudando bastante pra ampliar minhas conexões com a arte, e estou desenvolvendo meu primeiro curta metragem, projeto no qual ganhei o edital do VAI 2019. Quero me aprofundar no cinema, e estou projetando minha primeira exposição solo e o único spoiler que eu posso dar pra nao queimar largada é que ela fala sobre toda minha trajetória e o que me compõe como artista.


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