• Bárbara Alves

Meritocracia e publicidade: Projeto Quadros

Atualizado: Jun 20

Unindo o jornalismo a música, Tiago Tuiuiú lança o seu primeiro áudio documentário, o Projeto Quadros


A meritocracia é um discurso comum dentro do mercado de trabalho. Muitos acreditam que apenas com o próprio esforço é possível ascender socialmente, superando as barreiras sociais e econômicas presentes na sociedade brasileira. Porém, esse discurso não leva em consideração fatores como a desigualdade, a concentração de renda e o racismo estrutural, que impedem uma profunda mobilidade social e garantem a posição de poder de determinados grupos, desde a formação do Estado brasileiro.


Pensando nessa lógica, Tiago Tuiuiú produziu o áudio documentário Projeto Quadros, que aborda a meritocracia dentro do mercado publicitário. Tiago, que estudou jornalismo na Universidade Fiam-Faam, trabalha atualmente na área de planejamento da agência África, atendendo Budweiser e Brahma. O Projeto Quadros uniu suas duas áreas de atuação: a música e o jornalismo. Em, 2018, Tiago lançou por meio do alter ego L.n.t.c, o EP Alto Mar, que conta com 3 músicas e uma faixa bônus, Desculpa Seu Jorge eu fiz no celular. Atualmente, ele se dedica tanto na carreira musical, quanto na área de planejamento publicitário.


Por meio de uma linguagem literária, marcada pela sua conexão com a música e com a sua experiência dentro do mercado da comunicação, Tiago Tuiuiú lança o Projeto Quadros. A obras traz as perspectivas de 7 jovens negros, que atuam em agências publicitárias em São Paulo, sobre o discurso meritocrático. O autor também apresenta os desafios, as reflexões da vida e a realidade enfrentada pelos jovens negros no mercado publicitário, tudo isso com uma abordagem sensível e com uma escolha narrativa envolvente e pessoal.

Confira a entrevista concedida ao Descolonizarte:


Qual a sua ligação com a música e com a publicidade?

Com 16 anos, descobri na escrita e na música a diversão e a expressão que eu precisava para não seguir a realidade violenta do meu bairro. Aprendi que contar minha própria história me libertava das que sempre me foram contadas. Com o tempo, ganhei dois alter egos L.n.t.c (música) e Tuiuiú (jornalismo e publicidade), formas e identidades diferentes de contar histórias. Hoje, eu trabalho na área de planejamento da Agência África, atendendo as contas Budweiser e Brahma. O áudio documentário “Projeto Quadros” surgiu enquanto eu cursava o 7º semestre da faculdade de jornalismo em 2018, como um trabalho de conclusão de curso.

O que te motivou a realizar um áudio documentário sobre meritocracia?

3 fatores me levaram ao tema deste trabalho:

2018: o ano do ódio

Na época, aconteciam as eleições mais turbulentas que eu já havia presenciado na vida.

Anos de luta por direito e mais respeito pareciam cancelados por um discurso de ódio e preconceito de uma grande parte da sociedade. Qualquer crítica a esse discurso e comentário sobre desigualdade era chamado por essas pessoas como "mimimi".

Histórias cruzadas

No mesmo ano, estava escutando o álbum “Nada como um dia após o outro dia” do grupo Racionais Mc’s e uma música me chamou atenção. Essa faixa conta a história de um garoto que, ao não receber um presente no dia das crianças, se revolta contra sua mãe e, como resposta, ela devolve um tapa em seu rosto. Após contar a história, Mano Brown questiona qual seria o futuro daquela criança. Aquela cena me fez olhar pra minha história e perceber que a diferença entre nós e os ricos nunca foi o dinheiro, foi a nossa trajetória.

A invasão do aliens

Por mais que eu estivesse cursando jornalismo, eu havia entrado junto com outros jovens periféricos em uma agência de publicidade, porque na época eles buscavam perfis de fora da propaganda. Nesse grupo eu conheci pessoas incríveis, artistas e pensadores da minha cor e origem, que me ajudaram a olhar de forma crítica para aquele contexto. Hoje parece clichê falar sobre a necessidade de “ambientes diversos”, mas em 2016, ter um grupo como o nosso dentro de uma agência causava o mesmo impacto da chegada de alienígenas em suas aeronaves. Ao longo do tempo, foi se tornando evidente que existiam motivos para sermos praticamente os únicos negros e pobres - além dos profissionais na cozinha e na faxina - naquele espaço. E assim surgiu o tema do trabalho, que é: mostrar como a meritocracia prejudica a nós, negros e pobres, ao dar holofote a trajetórias por trás de diferentes carreiras profissionais, indo além do ambiente de trabalho.

De que forma você descobriu esse gênero, o áudio documentário, e por que você escolheu abordar o tema nesse formato?

Eu comecei perguntando às pessoas o que elas pensavam sobre a meritocracia e percebi que esse é um tema bem polêmico. Mesmo na quebrada, muitas pessoas acreditam que só o esforço já é o suficiente para ter destaque profissional. Por isso, era importante pensar em um formato capaz de prender a atenção das pessoas a ponto delas absorverem novos pontos de vista. O áudio documentário é um gênero pouco explorado. Eu encontrei poucas referências sobre o tema durante minha pesquisa, então pensei: já que não existe um formato bem definido, vou fazer do meu jeito. Assim comecei a incorporar características de textos que gosto como jornalismo literário, crônica e o próprio RAP - eles descrevem detalhes e trazem uma perspectiva humana dos fatos, flertando com a ficção. Dando início ao primeiro projeto onde eu misturei os universos da música e do jornalismo. Durante o processo de gravações das entrevistas me dei conta que, em muitos casos, a ficha das pessoas caia sempre durante o momento do almoço. A hora do almoço é quando as realidades se confrontavam e surgem comentários sobre vidas luxuosas, experiências internacionais e viagens rotineiras a Disney, estabelecendo uma trincheira entre os dois mundos.

Porque o áudio documentário se chama “Projeto Quadros”?

O nome "Projeto Quadros" é uma referência a música quadros, do primeiro álbum solo do cantor BK chamado "Castelos e Ruínas". Nessa faixa, BK se coloca como um observador refletindo sobre diversas histórias e quadros da sociedade. Acredito que durante o meu processo de produção eu me via da mesma forma. Ao mesmo tempo que estava fora como observador, eu estava em cada uma daquelas histórias, eu era como elas. Acredito que essa capacidade de identificação é a coisa mais importante de todo o projeto. De alguma forma sinto que somos todos um pouco o Matheus. Agora, pra entender tem que escutar.

Como a música influenciou na execução desse projeto?

Durante o processo, surgiu a música Disney World. Ela aborda diferentes prioridades entre ricos e pobres (enquanto a rotina de uns é a Disney a gente pensa se vai chegar vivo em casa). Finalizei a música, criando uma abordagem para o projeto: a vida profissional sob a perspectiva da juventude periférica, usando a Disney como símbolo, já que ela nos acompanha desde a infância até as conversas de bar.


Como foi o processo de produção do Projeto Quadros?

Como todo universitário ferrado, eu tive que me virar. Em agência de publicidade tudo é urgente, tudo é pra ontem, dia e noite se confundem e se você não tomar cuidado, logo aquilo se torna sua vida por completo. Por isso, levei meu computador para o trabalho e, depois do expediente, usava o espaço para fazer as edições. Foi bem desgastante, um TCC exige muita dedicação, assim como o trabalho em uma agência. Se fosse pra resumir esse trabalho em mensagem seria “A nossa história é o nosso mérito”.


Quais relatos que mais te marcaram?

Um dos momentos que mais me marcaram foi a conversa com a Ayana. Ao falar como lidava com o fato de não ter as mesmas viagens que outros alunos do Mackenzie (onde ela estudava), a Ayana não se deixou influenciar pela situação, sempre demonstrava o orgulho que sentia pela própria história.


Quais são os seus principais objetivos com o lançamento desse trabalho?

A ideia de trazer a tona esse material depois de 2 anos, primeiramente, surgiu da necessidade de criar algo durante a quarentena. Percebi que me prendia muito a alguns projetos e era hora de explorar o potencial de cada um. Independente de estar em novo momento, onde sinto que evolui ou mudei em alguns aspectos. Além disso, acredito que estamos em momento de reestruturação de diversas estruturas, principalmente no ambiente de trabalho. Alertar as pessoas para os danos que a meritocracia traz para jovens negros e pobres no mercado de trabalho é garantir que essa discussão aconteça nesse novo cenário também. Se as redações e agências eram predominantemente brancas e ricas quando isso era visível aos olhos de todos, quantos de nós estarão inseridos nesse novo mercado sem rosto devido o isolamento social?


Confira o áudio documentário:


Animação: Luc Souza

Pesquisa / Roteiro / Entrevistas: Tiago Tuiuiú

Áudio: L.n.t.c


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