• Bárbara Alves

Menino prodígio criado sem pai: Pegge

Atualizado: Jun 20

Por meio da tinta á óleo, Pegge produz telas que dialogam com o sentimentalismo e com elementos presentes no cotidiano dos jovens periféricos brasileiros


Existe um série de artistas brasileiros que impactaram as suas áreas sem terminar o ensino básico. Heitor dos Prazeres, por exemplo, cursou até a quarta série e é um dos grandes nomes do samba, além de ter deixado uma enorme contribuição para as artes plásticas brasileiras. Maria Auxiliadora, por sua vez, deixou de estudar aos 12 anos para trabalhar como empregada doméstica e obteve reconhecimento nacional e internacional com os trabalhos, que retratam desde cenas da vida doméstica a temas relacionados a cultura popular brasileira. Carolina de Jesus estudou até os 9 anos e seu livro, Quarto de Despejo, foi traduzido para mais de 10 línguas.


Todos eles possuem em comum um talento gigante, que se potencializou não nas escolas, mas em outros ambientes responsáveis pelo desenvolvimento intelectual de cada artista.

Pegge faz parte desse grupo.


Na sua adolescência, foi obrigado a deixar a escola devido a uma doença chamada ceratocone, que afetou a visão do seu olho esquerdo. Durante esse período, Pegge e a sua mãe, Sandra Margareth, foram atrás de diversos tratamentos médicos para amenizar os efeitos da doença.


“A gente acabou descobrindo essa doença quando eu tinha 12 anos e voltei muito tarde da escola, porque eu tinha pego o ônibus errado e não estava conseguindo enxergar o busão. Na época, a gente tinha uma TV na cozinha, um televisãozinha, e ai eu apertei o olho para enxergar e a minha mãe percebeu que tinha alguma coisa de errado”, afirmou Pegge durante a nossa conversa por WhatsApp, em meio a quarentena provocada pela pandemia de Corona Vírus.


“Depois a gente se tromba, é que tá foda agora mesmo. A melhor coisa a se fazer é se cuidar”.


A ceratocone é uma doença rara que provoca o atrofiamento progressivo de uma das partes do olho, a córnea, e afeta cerca de 4 a 600 indivíduos a cada 100.000, de acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Os primeiros sintomas da doença geralmente surgem entre os 13 e os 18 anos de idade, na fase da puberdade. O Conselho também ressalta que a herança familiar está presente em 6 a 8% dos casos.


“A gente descobriu que poderia ter vindo do meu pai. Meu pai é falecido, ele morreu quando eu tinha uns três anos e ele era cego de um olho. Eu fiz o primeiro transplante de córnea e tive que faltar muito a escola por causa do pós-operatório. Depois, a gente fez outro procedimento, mas infeccionou e a gente teve que fazer o transplante de novo, mas eu não podia faltar tanto a escola. Então, a gente decidiu que eu ia parar de estudar. Eu não completei o Médio, só tenho o fundamental completo e isso afetou minha vida no lance de querer questionar mais o que eu poderia fazer”.


Pegge em seu ateliê, localizado em na zona leste de São Paulo


Criado em Ermelino Matarazzo, bairro da Zona Leste de São Paulo, Pegge se destaca devido ao uso de técnicas clássicas da pintura a óleo para criar representações que dialogam com o sentimentalismo e com elementos presentes na cotidiano dos jovens periféricos brasileiros. O protagonismo negro também é enfatizado nas suas produções, já que um dos objetivos dos seus trabalhos consiste na “criação da ancestralidade do futuro para a as próximas gerações”.


Mas as suas habilidades não se restringem apenas às artes visuais. Pegge também toca diversos instrumentos musicais, entre eles, violão, baixo, bateria, guitarra, gaita, teclado, trompete. Quando era pequeno, ganhou um cavaquinho e um pandeiro meia lua e apesar de não saber tocar, ficou encantado com a sonoridade dos instrumentos. “Eu só fazia um teiiiiin e fingia que tava tocando”


Já na adolescência, Pegge explorou inúmeras possibilidades fora da escola, chegando a cantar e tocar violão na rua, além de passar longos períodos estudando álbuns clássicos de jazz. “Eu tinha que trazer grana pra casa, então eu já trampei em padaria, já toquei na rua. Isso foi em 2017, mais ou menos”. Nessa fase, artistas como Nat King Cole e John Coltrane exerceram uma forte influência no estilo musical de Pegge.


Da esquerda para a direita: Kind of Blue, Miles Davis (1959), A Love Supreme, John Coltrane (1965) e After Midnight, Nat King Cole (1957)


“Passei toda a minha recuperação [das cirurgias oculares] ouvindo esses álbuns. Então por mais que eu tocasse na rua alguma coisa que eu não estava ouvindo mais, eu deixava interessante de tocar por causa do conhecimento que eu tinha adquirido ouvindo essas outras coisas. A mudança de um acorde pra uma coisa mais sofisticada, já deixava mais interessante de tocar uma música que talvez fosse simples”.


Sua conexão com as artes visuais, assim como a sua conexão com a música, também se desenvolveu durante a infância. Quando menor, Pegge produzia diversos desenhos com os materiais que encontrava disponíveis em sua casa. “Eu tinha pilhas e pilhas de desenhos e eu tinha que jogar todos fora depois, porque a minha mãe não aguentava mais tanto papel em casa”.


Porém, antes de se dedicar às telas, Pegge passou por uma série de fases para criar o seu estilo. Uma dessas fases foi o urban sketchs, que consiste na reprodução de elementos da arquitetura urbana no papel. “Foi muito bom o treino para fazer linhas retas e pensar em proporções. É muito doido como só depois vai dar resultados essas coisas que você nem pensava que eram um estudo, sabe?”



Urban sketchs feitos por Pegge, em 2015


Já as suas primeiras experiências com tela ocorrerem em 2018. Seu primeiro trabalho foi feito por Pegge com os materiais encontrados em sua casa. “O que eu tinha era uma tela aleatória, dessas de casa de mãe mesmo, pincel de maquiagem da minha irmã, e tinta guache de criança”.


A tela foi vendida, o que foi uma surpresa para o artista. “Compraram por 50 reais e eu tava achando muito caro, que ninguém ia comprar. Mas compraram e com o dinheiro, eu comprei mais duas telas e ai, foi”.

Primeira tela de Pegge, feita em 2018


Porém, um ano antes, em 2017, Pegge frequentou uma oficina de grafite na Ocupação Mateus Santos, localizada em seu bairro natal, Ermelino Matarazzo. Essa experiência contribuiu no seu desenvolvimento como artista. “Eles que me deram essa luz de que eu podia fazer algo além de desenhos”.


Ermelino Matarazzo apresenta poucos espaços públicos voltados para a cultura, de acordo com o levantamento realizado pela Rede Social Brasileira por Cidades Justas, Democráticas e Sustentáveis. Em 2017, dos 8 indicadores culturais levantados pelo estudo, sendo eles: acervo de livros infanto-juvenis, acervo de livros para adultos, centros culturais, cinemas, equipamentos culturais públicos, museus, salas de show e teatro, Ermelino Matarazzo apresentou resultados iguais a zero em 6 dos 8 marcadores.


A falta de incentivos públicos para a criação de espaços culturais localizados nas periferias da cidade faz com que diversos artistas, que habitam esses lugares produzam desafiando os limites impostos pelo poder público.


A educação precarizada que não mostra a arte como um caminho possível, a destinação de trabalhos braçais para os moradores das periferias e a ausência de aparelhos públicos voltados para a cultura, são alguns dos fatores que ilustram a carência de motivações enfrentadas por esse grupo. Por isso, os artistas que saem desses meios, geralmente carregam uma vontade enorme de produzir de forma autônoma, já que receberam poucos incentivos governamentais durante momentos cruciais de suas carreiras.


Pegge transformou esse sentimento em um dos conceitos centrais do seu trabalho, o Lo-Fi.

“Eu decidi que eu iria colocar o Lo-Fi na tela para eu sempre me lembrar disso, que eu não posso me prender a nada, só a minha própria vontade, meu próprio entusiasmo de fazer alguma coisa”


Da esquerda para a direita: Saudade (2019), New era são Sebastião (2019) e Ta pensando nela não ne? (2020)


Lo-Fi é uma filosofia influenciada pelo método DIY (Do It Yourself, em português Faça-Você-Mesmo) e que se espalhou para diversos ramos culturais como a música, as artes visuais, o cinema e a escrita, de acordo com o livro DIY: The Rise of Lo-Fi Culture, escrito por Amy Spencer e publicado em 2005 pela editora Marion Boyars.


Amy afirma que o estilo musical Lo Fi foi criado nos anos 50, na América do Norte, a partir de bandas de rock que não possuíam os recursos necessários para realizar contratos com gravadoras e por isso optaram por gravar suas músicas em baixa qualidade. Lo-Fi é a abreviatura de low fidelity (baixa fidelidade) e faz contraposição as gravações musicais de alta qualidade, denominadas high fidelity (alta fidelidade). Mas foi apenas nos anos 90, que o estilo ganhou destaque no cenário musical, passando pelos punks nos anos 70, o pós-punk e a cena indie dos anos 80, que dura até os dias de hoje.


"Eu peguei a filosofia da coisa e coloquei no meu trabalho. Isso é um lance que todo periférico tem, de fazer com o que tem na mão. Fazer um bagulho bem feito é o nosso talento."


A primeira exposição individual de Pegge foi elaborada a partir desse conceito.


Em 2018, o artista apresentou a exposição LO-FI SE, que ocorreu na Laje795, bar localizado na região central de São Paulo. No mesmo ano, Pegge participou da exposição SOBRE(Vivência), que aconteceu na Ocupação Mateus Santos, reunindo diversos artistas da Zona Leste.

Cartaz e obras da exposição LO-FI SE


Foi muito gratificante ter uma primeira exposição individual no primeiro ano que eu comecei a pintar, as coisas aconteciam muito rápido e eu tava muito feliz. Ai, depois rolou um convite da A7MA, a minha primeira exposição individual em galeria”


A7MA foi a galeria responsável por essa exposição, que apresentou dois marcos importantes do trabalho de Pegge. O primeiro é a mudança do foco narrativo. “Eu tirei o peso do eu, já que a primeira exposição foi totalmente focada no que eu tava sentindo e coloquei no nós para falar de quem estava na minha volta. Ephemeral foi muito sobre congelar esse momento de união, de coletivos, de memórias. Então eu pintei muito minha família, meus amigos”. A exposição Ephemeral ocorreu em maio de 2019 e apresentou 13 obras de Pegge, todas pintadas à óleo.


Já a segunda mudança é relacionada com as escolhas das cores usadas nas telas, que passou dos tons azulados e esverdeados para os tons terrosos.


“Quando eu coloquei os tons terrosos, foi em uma época do ano passado em que eu já tinha muita certeza desse chão que eu tava pisando. Então, comecei no primeiro ano colocando tudo em tons azulados e foi como se eu tivesse pulado nesse mar, nesse céu em que eu não sabia onde eu estava me enfiando e ai, eu pisei. Eu consegui fazer uma caminhada, fazer um chão pra mim mesmo nessa dúvida toda”.


Além de ter exposto na A7MA, Pegge também faz parte dos artistas da galeria, como afirma Enivo, artista visual e sócio-fundador da A7MA: “Eu o convidei para expor na A7MA e ser um dos artistas, porque eu me vejo nele. Então, ele foi fazer a primeira visita pra mim e chegou lá com o cabelo black, de skate, vindo de super longe e eu me vi nisso, porque eu sou do Grajaú e eu fazia a mesma coisa: pegava o meu skate, uns desenhos e saia por aí querendo mostrar para as pessoas e foi bem o que eu vi ele fazendo 10 anos depois. Então eu vi nele a minha história”.


Durante a produção do texto da exposição Ephemeral, Enivo criou a frase menino prodígio criado sem pai, que Pegge utiliza na sua bio do Instagram. “Quando eu coloco menino prodígio criado sem pai, eu realço a importância da minha mãe nesse processo, porque eu faço as coisas desde muito cedo e eu fui muito estimulado desde pequeno”, afirma Pegge.


Já para Enivo, a frase simboliza uma realidade comum nas periferias brasileiras, que é a figura do pai ausente e da mãe como a principal responsável pelo lar. “Eu cheguei na frase menino prodígio criado sem pai, porque também é uma realidade minha também. O meu pai foi separado da minha mãe, e ele também perdeu o pai muito cedo, então foi criado pela mãe e isso traz uma força muito grande dos meninos criados sem pai. É uma coisa muito corriqueira nas quebradas, as pessoas crescerem sem o pai presente”.


Além de Enivo, a galeria A7MA também conta com a coordenação de Tché Ruggi, Cristiano Kana, Alexandre Enokawa e Raymond Supino e já realizou mais de 30 exposições com diferentes nomes da arte de rua. Ela foi fundada em 2012, a partir da união da união do Coletivo 132 com a Fullhouse, empresa de serigrafia criada nos anos 90 em São Paulo.


“Em 2018, o Enivo comprou uma tela minha e foi muito gratificante, porque ele é referência de artista preto foda. Ele comprou uma tela da LO-FI SE, da exposição individual e falou assim “Você não quer deixar uma lá na A7MA? Eu compro uma e outra a gente deixa lá”, eu falei “Porra, é claro que eu quero”. A7MA foi a primeira galeria urbana que eu fui na vida, a primeira que eu ouvi falar, então foi muito foda esse convite”, além da importância de expor em uma galeria de relevância como a A7MA, Pegge também ressalta a diferença entre o público.


“É um outro público totalmente diferente do que eu tenho no Instagram. É um universo muito privilegiado de pessoas com dinheiro, sabe? Tanto que a primeira tela que eu vendi na exposição foi a mais cara, porque o cara comprou ainda no dia da montagem. Ele pediu pra ver as telas e eu já arrastei a mais cara, e ele comprou na hora. É muito doido isso e é um lance de Robin Hood mesmo, de tirar de quem tem pra poder fazer esse dinheiro virar em outras coisas depois”


Pensando nessa lógica, Pegge produziu prints de uma das suas obras mais impactantes: Jesus Chorou. “Uma das primeiras coisas mais acessíveis que eu quis fazer foi o print do Jesus Chorou, que é uma das coisas mais importantes que eu já fiz. E ai, perguntaram porque estava tão barato e era pra disseminar mesmo, e se eu pudesse eu faria mais barato ainda.”


A tela foi feita durante o festival Arte Core, que ocorre todos os anos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM RJ). Em 2019, Pegge foi um dos artistas convidados do evento, que reuniu nomes como Ana Almeida, Diego Mouro, Fábio Baroli, Gabriel Dias, Helen Salomão, Priscila Amoni, Rajni Perera, Uinverso (Nadiuska e Priscila Furtado), Wallace Pato e Wes Gama.


“Na real, eu não sabia como que eu ia fazer essa tela, eu só tinha um foto de referência, porque eu queria uma iluminação vinda de cima, mas tudo foi de hora mesmo. Não sabia as cores que eu ia usar, não sabia o que ia rolar, mas eu fiz muito rápido. Geralmente, eu pinto muito rápido”



Jesus Chorou, Pegge (2019)

A obra produzida no Rio de Janeiro é uma releitura da imagem clássica de Jesus Cristo. De acordo com os dados de 2019 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 56,10% da população brasileira é negra. O cálculo feito pelo instituto identifica a população negra como a soma das autodeclarações de pretos e pardos. Já segundo um levantamento realizado pelo Datafolha em 2019, 81% dos brasileiros pertencem a religiões cristãs, sendo que a maior parte desse grupo se declara parda. Portanto, a temática racial e o cristianismo são elementos fundamentais que constituem a sociedade brasileira desde o sua formação.


“A maior representação de uma mentira é a de Jesus branco e de olho azul. Sigo um princípio das obras do Spike Lee, minhas obras não dão a resposta, elas abrem a discussão, e a discussão que eu quero abrir aqui é: Jesus voltaria hoje sabendo que ele é representado como o Jesus que odeia, que reprime e que matam em nome dele?”


A releitura feita por Pegge é uma crítica às diversas representações da imagem de Jesus Cristo na atualidade. Pegge critica tanto a representação branca de um ícone religioso em um país formado majoritariamente por pessoas negras, quanto o uso desse ícone para a perpetuação de um discurso de ódio que afeta LGBTs, seguidores de outras religiões, em especial religiões afro-brasileiras, entre outros grupos que sofrem com a perseguição e o discurso de ódio.


“Eu costumo dizer que existe o Pegge antes e um depois dessa tela porque ela foi muito gratificante em muitos sentidos. Foi um lance muito poderoso que veio pra mim, eu me senti muito grato”


Outra grande referência que contribuiu no desenvolvimento de Pegge como artista foi Diego Mouro. “Ele me levou no ateliê dele, me abraçou, me ensinou óleo e as manhas, porque óleo é um pouco complicado de mexer”



Corre!... Não!, Diego Mouro (2019)


Muralista e habitante de São Paulo, Diego Mouro já produziu diversos trabalhos no Brasil e no exterior. Suas obras, assim como as de Pegge, abordam temas relacionados a temática racial.“Pegge é um moleque que testa muito, por consequência erra muito, e na mesma velocidade que erra, acerta, por isso os trabalhos são sempre muito assertivos. Ele erra o mais rápido que pode pra poder tirar os aprendizados rápido e seguir. Acho incrível essa capacidade que ele tem. Sou fã da maneira visceral como ele coloca os trabalhos para fora, como se dedica e como tem muito dele em cada tela.”, afirma Diego.


Em 2018, Diego e Pegge trabalharam juntos em uma graffiti comemorativo ao centenário de Nelson Mandela. Inaugurado em outubro de 2018, o mural foi assinado por Diego Mouro e Criola, artista visual e uma das principais representantes da arte urbana brasileira, e contou com a participação de Pegge como assistente do projeto.

Mandela, por Criola e Diego Mouro (Imagem: Instagrafite/Divulgação)


Mas Pegge também já realizou outros trabalhos envolvendo o graffiti. Um deles é a série O Corre, desenvolvida entre os meses de julho a outubro de 2018.


“O Corre foi uma série de muros que eu acabei nem completando, porque eram pra ser 10 muros e eu fiz 9. Eram meio que dicas de coisas que eu tava aprendendo como artista jovem periférico, e ai tipo eu falei: “Caraca, eu acho que o jeito mais democrático de eu passar isso pra frente, não é nem na tela, que é uma coisa mais fechada, mas é no muro”. E foi a primeira vez que eu saí pra pintar sozinho. Teve um dia que eu viajei por Ermelino toda de skate procurando um muro, porque não podia ser muito grande e nem muito pequeno e foi uma experiência muito foda, muito maneira”.


A série foi produzida na fase turquesa de Pegge, quando o artista ainda procurava estabelecer conceitos fundamentais de seu trabalho. Temas como referências artísticas, autoconhecimento e respeito pelo passado foram abordados nas produções do O Corre, que contou com uma interrupção devido aos outros projetos em que Pegge estava envolvido no momento.


Trabalhos da série O Corre


“Eu fui assistente do Diego Mouro no mural do Mandela, lá no Minhocão e foi bem nessa época. Eu não consegui fazer muitas coisas além disso, mas o último era pra ser um retrato do Basquiat e do Tyler, The Creator como dois jovens artistas muito fodas de várias vertentes e de como eles me inspiravam. Era esse o recado do O Corre”.


Porém, apesar da inconclusão da série, a mensagem que Pegge almejou transmitir para jovens artistas que assim como ele, lutam para conquistar o seu espaço dentros do cenário das artes brasileiras, gerou resultados e identificações.


Três exemplos disso foram os convites feitos pelo poetas Igor Chico e Beká, e pela banda paraense de rock progressivo, Velhos Cabanos, para que Pegge desenvolvesse artes para os seus trabalhos. “É muito maneiro quando eu consigo expandir essa visão. É aquele lance de empatia, da pessoa olhar o trampo e querer que aquilo seja a porta de entrada para o trabalho dela”.


(Da esquerda para a direira: Traço, Velhos Cabanos (2019) e Dom Quixote Pixaim, Igor Chico (2019) e 3x10, Beká (2019)


Beká conheceu Pegge na Ocupação Mateus Santos e ao ver o trabalho desenvolvido por ele, se encantou pela temática e pela forma com que Pegge produzia seus desenhos. “Acho que parte daí o meu encanto: ele pintava as coisas que eu vivia, porque ele também veio de uma quebrada e as nossas referências eram próximas, e isso me fez ter um interesse muito maior, um outro olhar para os quadros, para esse tipo de arte. O que mais me chamou atenção, foi como ele conseguia colocar a periferia dentro de um quadro, que a gente conseguia nos ver ou pelo menos compreender o que aquele quadro estava querendo dizer”, afirma o poeta e vice campeão do Slam Brasil 2019.


Já Igor Chico, reforça a sensibilidade e originalidade presente no trabalho de Pegge.“Gosto muito de como o Pegge é original. Me identifiquei muito quando vi a primeira arte dele na capa do livro do Beká, porque me deu uma sensação de que mesmo na tristeza, temos uns aos outros”.


Com a banda Velhos Cabanos, a aproximação para a produção da capa do single Traço, ocorreu por meio do guitarrista, Onze, que conheceu o trabalho de Pegge por meio do Instagram. “Me encantei com as telas e a estética que ele desenvolveu e comecei a seguir pra acompanhar o trabalho dele mais a fundo. Então, antes de cobiçar dividir um trabalho profissionalmente com o Pegge, já havia uma admiração pessoal”.


Onze também afirma a como foi satisfatório ver o resultado final da arte.“Deixamos ele bem livre para contribuir da sua forma, com o seu olhar. Então, quando recebemos a tela final, a alegria foi geral por ver nosso trabalho musical sendo consolidado e ampliado visualmente. O resultado nos surpreendeu demais e tenho certeza que foi o melhor que poderíamos ter alcançado conjuntamente.”


Além dessas parcerias, Pegge também está desenvolvendo projetos com Phix, músico e morador de Ermelino Matarazzo. “O Phix é um cara que eu pintei e que eu tô gravando um som agora, maluco de quebrada, meu vizinho”

Quando você vê o bb no baile, Pegge (2020).


O projeto em andamento é um EP, que contará com 4 músicas, sendo a maioria instrumental. “Eu quero fazer um clipe pra cada música e no final virar um curta. Estender estes vídeos e virar um curta metragem. A gente ia gravar um som a cada semana, mas por conta da quarentena e do Corona VÍrus, eu só consegui gravar um.”


Apesar de serem vizinhos, Pegge e Phix se conheceram apenas em 2017, por meio de amigos em comum. “Rolou um debate com o Rincon Sapiência na Ocupação Cultural Mateus Santos, em Ermelino Matarazzo, nesse dia que eu fiquei sabendo que ele desenhava. Nos encontramos mais algumas vezes depois disso mas só fomos ficar próximos mesmo, depois da oficina de grafite que rolou na Ocupação”, afirma Phix em uma DM do Instagram. “O Pegge me ensinou muita coisa sobre música, me mostrou artistas, instrumentos, teoria, várias coisas que me ajudaram nessa formação, sabe? Sinto uma fluidez muito boa quando a gente troca ideia e acho que esses trampos são uma consequência disso. Ele é um músico incrível seja se tratando de tocar ou cantar e se depender de mim, pode ter certeza que ainda vamos fazer muitas músicas juntos”.


O envolvimento de Pegge com outros campos das artes é um dos fatores pelos quais ele prefere ser denominado como artista, e não como pintor. “Porque pra mim, a definição de artista é uma pessoa que domina os 7 tipos de arte, então eu quero me desdobrar e fazer esse rolê da arte acontecer. Claro que eu sei que hoje o meu carro chefe, o meu tronco é a pintura, mas isso não me impede de criar galhos”.


O processo criativo de Pegge também é algo que surpreende o seu público. Desde o início da quarentena até a publicação de desse texto, em 6 de maio de 2020, Pegge produziu 12 telas, abordando diferentes temas como o acúmulo de sentimentos, saudades e autoestima. “Eu quase não tenho bloqueio criativo, porque quando eu vejo que uma tela não está indo, eu já parto pra outra. Então, o bloqueio acaba me impulsionando para outra tela”.


A sensibilidade de Pegge somada a ânsia de sempre estar produzindo já o levou para diversos lugares. Além de ter participado do Arte Core em 2019, Pegge também foi convidado pela Sony Channel Brasil e pelo instagrafite para expor no Metrô Consolação (Linha 2-Verde do Metrô).


A ação, chamada The Good Gallery, teve como objetivo promover a estreia da primeira temporada da série The Good Doctor e simulou uma galeria de arte na estação do Metrô. Outros artistas como Priscila Barbosa, Bruno Malfatti, Paloma Partes Rafael Odrus, Karen Fidelis também participaram da campanha publicitária.

Divino Cotidiano, Pegge (2019)


A tela feita por Pegge para a ação foi a Divino Cotidiano, que retrata diversas famílias das periferias brasileiras. “É um autorretrato da minha família sem ser um autorretrato. Tipo, é tão comum essa divisão de personagens na vida periférica, que acaba sendo um autorretrato de todo mundo: a mãe viúva com um filho que acabou de nascer e uma mais velha, que pra mim ali era o nascimento de Jesus. Deus como a mãe, Jesus, o pequeno, e o Anjo Gabriel ali, vendo como que vai cuidar daquele ser enquanto a mãe tá trabalhando de sacoleira na rua, tá ligado?”

Ter o seu trabalho em um dos pontos centrais da cidade também uma experiência importante na trajetória de Pegge. De acordo com os dados da Secretaria dos Transportes Metropolitanos (STM), a estação Consolação (Linha 2-Verde do Metrô) recebe cerca de 145 mil usuários por dia e dá acesso a um dos pontos centrais da cidade de São Paulo, a Avenida Paulista. “Foi bem maneiro a experiência no Metrô Consolação. Todo mundo passa por lá e muitos amigos meus passavam e me marcavam no Instagram. Foi uma experiência bem foda”.


Mas o trabalho de Pegge merece cada vez mais destaque. Tanto pela sua capacidade de comunicar de forma sensível sobre as realidades enfrentadas pela juventude periférica, quanto pela quebra dos estereótipos, que afirmam que a arte negra deve retratar apenas temas como a violência policial, fome e miséria.


Por meio da tinta à óleo, Pegge colabora na construção de uma nova forma de representar a juventude negra brasileira, utilizando uma linguagem sensível, verdadeira e poderosa.


É um lance de se entender mesmo, e nesses últimos tempos tem sido muito difícil encarar certos sentimentos porque tem alguns que são só bonitos na tela e não na cabeça. Mas eu acho que é muito bom a gente expor algumas coisas porque é muito empático. Eu recebo muitas mensagens falando de empatia, então acaba sendo um movimento não do eu sozinho, mas do eu pra todos. E um artista negro falando de sentimentos é mais do que necessário.

Da esquerda para a direita: Homebody/Solsticio III (2020), Solstício II (2020) e Solstício (2020)


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