• Bárbara Alves

Introduções, linguagem e jornalismo de artes visuais


Se você está aqui, imagino que conheça o Descolonizarte.


Seja pelo volume de posts no Twitter, pelas indicações diárias de artistas contemporâneos ou pelas entrevistas e reportagens do site. Você também sabe que todos esses materiais possuem uma curadoria que resulta de muita pesquisa e de uma vontade gigante de concretizar um espaço voltado para a produção de artistas não brancos, que por esse motivo não recebem o reconhecimento necessário do mercado de arte.


Só que por trás de todo esse trabalho existe uma pessoa: eu.


Para quem não me conhece, meu nome é Bárbara e eu gosto muito de estudar arte desde a minha adolescência. Só no final dessa fase que eu fui entrar em contato com o debate racial e isso me fez perceber que tinha alguma coisa errada com as referências artísticas que eu consumia, pois todas eram brancas. Algum tempo depois dessa reflexão e de alguns eventos que mudaram a minha cabeça, eu criei o Descolonizarte.


Eu escrevo com frequência por aqui. O último texto que eu lancei foi uma entrevista muito bacana com a Auá Mendes e de vez em quando eu faço algumas threads no Twitter sobre os artistas que eu considero relevantes.


Mas eu sinto muita necessidade de externalizar as minhas impressões sobre tudo que eu consumo e trago para o projeto. Portanto, esse espaço que estou concretizando agora é uma conversa (ou monólogo?) sobre os meus pensamentos e reflexões acerca da produção artística não-branca e a concretização desse espaço tão necessário. Espero que as minhas percepções também possam colaborar para o debate e para a ampliação de um pensamento crítico voltado tanto para o mercado, quanto para a historiografia clássica da arte.


Então vamos lá:


Vou iniciar falando sobre a linguagem da arte contemporânea, pois antes da pandemia, eu frequentava diversas exposições e sempre prestei atenção a linguagem com que os curadores utilizavam para introduzir o público ao material e ao artista exposto. Confesso que eu gosto dessa estética rebuscada de adjetivos complexos, pela sonoridade e sensação visual provocada por aquelas palavras longas unidas, mas considero essa prática inútil para a comunicação da arte


Na verdade, eu entendo o motivo pelo qual esses textos são produzidos dessa maneira. Eles são feitos para atingir um público bem específico que está confortável com esse vocabulário altamente rebuscado e também com a atual visibilidade gerada pela arte contemporânea, que exclui a produção de artistas não-brancos e periféricos. Mas se quisermos inserir esses artistas no debate da arte, também temos que pensar sobre a comunicação que iremos utilizar para conectar a arte ao nosso público (e entenda esse público como eu, você, seus amigos da rua, seus familiares). Pessoas que assim como nós se conectam com a arte decolonial por entenderem que essas narrativas são sobre elas e praticadas por pessoas semelhantes a elas. É importante pensar no conteúdo que merece visibilidade, e também na forma com que iremos conduzir essa narrativa.


Mas também é necessário pensar para além dos espaços físicos e instituicionais, como os museus e galerias, até porque esse é um debate muito amplo sobre as pessoas que conduzem esses espaços e o seu real comprometimento com mudanças que urgem serem realizadas por uma pressão social e pelas novas tendências vigentes.


Recentemente, os Estados Unidos ficou em chamas por causa da estrutura racial, símbolos da herança colonial são cada vez mais problematizados, há uma cobrança para a presença de pessoas negras em cargos de liderança, e eu sei que as mudanças estruturais estão longe de serem concretizadas, pois isso demanda coisas como o fim do capitalismo, a abolição de prisões e o fim da propriedade privada, mas esses fatos que são noticiados nos jornais e que são pautados com mais frequência, apontam para onde as novas tendências de pensamento e comportamento estão indo.


Por isso que cada vez mais os espaços tradicionais da arte tentam trazer artistas que fojem da lógica hegemônica branca, mas ainda é muito pouco. Há muitos artistas produzindo, utilizando diferentes meios e trabalhado com temas diversos. Não há como restringir toda essa multiplicidade nessa minúscula categoria criada por esses espaços institucionais. São trabalhos diversos que merecem um espaço que olhe para além do apontamento racial e entenda toda a subjetividade que eles carregam.


E nisso eu vejo que a criação e a consolidação de uma mídia de arte voltada para essas questões é essencial, pois esse espaço funcionaria como um mediador entre o público e a arte, e pautaria todas essas subjetividades que não são vistas pelo olhar colonial cego pelos padrões estéticos brancos.


Uma mídia de arte decolonial iria aproximar os artistas ao público, pois muitos sofrem com a questão da divulgação e acabam se sobrecarregando. Além de produzirem o seu trabalho, também necessitam fazer os corres de divulgação, sendo que isso poderia ser facilitado se existissem profissionais voltados para a comunicação da arte.


O meu sonho é que o Descolonizarte se estruture para cumprir esse papel e preencher esse vácuo existente entre a arte periférica e o público periférico, sempre usando uma linguagem didática e atraente para conduzir essas narrativas da melhor forma possível.


Enquanto essa realidade não se concretiza, sigo trabalhando para alcançar mais pessoas e mostrar a necessidade desse debate, para que um dia, eu tenha as ferramentas necessárias para consolidar e estruturar esse rolê.


Agradeço por você estar acompanhando todo esse corre e caso você ainda não conheça o meu trabalho, fica o convite para você seguir o descolonizarte nas redes sociais.


Até a próxima semana.





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