• Bárbara Alves

A versatilidade de Auá Mendes

Usando diversas cores, texturas e linguagens, Auá Mendes constrói diferentes identidades visuais em seus trabalhos


Uma das características que mais chama atenção no trabalho da Auá Mendes é a maneira com que ela consegue criar séries de maneira concisa. A paleta de cores e as temáticas variam, mas o estilo presente em suas produções é nítido e inconfundível. Auá traz em seus trabalhos um traço marcado por um forte contorno e uma geometricidade maleável, com

que a artista retrata corpos indígenas e translgb. Aos 21 anos, Auá é mestranda na Universidade Federal do Amazonas e formada em design gráfico pela Faculdade Metropolitana de Manaus. Além dos trabalhos com design, também trabalha com graffiti, fotografia e performance.


Confira a entrevista concedida por Auá Mendes ao Descolonizarte:


Os seus primeiros trabalhos, de 2017, seguiam uma estética de horror cósmico e eram todos em preto e branco. Como você começou a desenhar e como foi esse seu primeiro momento com as artes visuais?

Gostei do “horror cósmico”(risos). Bem, comecei a desenhar desde muito pequena. Minha mãe sempre foi uma incentivadora do que eu fazia, inclusive um dos motivos d’eu entrar na escolinha cedo, com 2 anos e meio, foi por “riscar” os cadernos dos meus irmãos, por deMONSTRAR muito cedo uma considerável expressão e desenvoltura. No decorrer da minha pré-adolescência e adolescência sempre recorri à arte como refúgio por me sentir, de certo modo, excluída da sociedade. Então, mergulhava meus anseios, desejos, sonhos em desenhos. Confesso que a arte me ajudou muito em eu não tentar algo contra a mim mesma. Ao entrar na Faculdade Metropolitana de Manaus, onde me formei em designer gráfica, pude entender um pouco mais sobre as artes visuais, e suas vertentes, entendendo que podia desconstruir a estrutura eurocêntrica relacionada ao campo das artes, e não me permitir as diversas violências que meu corpo sofreu, e sofre por conta dessas normatividades padrões de estéticas eurocêntricas

Há Dor, Fale! e Raízes - Auá Mendes (2017)


Você também já trabalhou com aquarelas, usando com uma paleta de cores pastéis e falando sobre temas relacionados a afetividade. O que essa fase simboliza para você?

Simboliza construção, TRANSformação, uma busca sobre o entendimento e fortalecimento da minha própria afetividade e como ela reverbera na conectividade em meio à sociedade.

Foi um processo delicado, pois sempre faço um mergulho em coisas que me enfraquecem, que me ferem, causando bloqueios e em meio disso tento encontrar um caminho, para que possa me fortalecer e que possa gerar alguma reação naquele que ver, e essa fase não foi diferente, pois foi uma época mais melancólica e triste, eram um turbilhão de dores e pensamentos, e isso me prendia a coisas que não me faziam bem, então, foi uma busca de um autocuidado, auto-amor, entendendo processos pessoais de cura, de aprendizado com as reações orgânicas que o meu corpo tinha, de como utilizar a dor sem que ela seja um motivo de atentado a nossa existência, mas uma ferramenta de cura e aprendizado.


Aquarelas de Auá Mendes (2017)


Já no início de 2018, o seu trabalho passou a utilizar tons mais saturados, principalmente com a cor azul. Outra coisa que chama atenção é a temática mitológica. De que forma você definiu a paleta de cores nessa fase e qual a importância da mitologia no seu trabalho?

A paleta de cores foi definida a partir da relação e significância que as mesmas possuíam e possuem sobre a minha vida e a minha trajetória, de como elas se mostram e como eu as enxergo. Sobre a mitologia, que eu prefiro dizer que é um resultado da minha pesquisa de ancestralidade e entendimento do meu corpo indígena, trago a importância do movimento NEOREGIONAL e movimento TUPINIQUEEN, que surgiu da necessidade de criar espaços que possibilitem representatividade no norte do Brasil, sendo um lugar de fortalecimento dessas identidades que se aproximam e compartilham saberes através de diálogos, oficinas e afetos. Portanto, entende-se que essa importância se dá por conta da existência dos nossos corpos nos tempos atuais, e para nossas ancestrais e transcestrais, que possibilitaram a minha retomada. Entendo que não é apenas sobre mim, é para além disso.

Aquarelas de Auá Mendes (2018)

Em abril de 2018, você passou a abordar temas mais ligados à natureza. Como foi esse momento?

Bem, foi construtivo, pois todos os elementos, diálogos, ferramentas utilizadas no meu trabalho, são resultado de algo, de uma vivência, por isso digo que foi construtivo, pois faz parte do entendimento que possuo no exato momento e sobre a consciência de que precisamos cuidar da nossa casa, do espaço em que vivemos para que aqueles que virão depois de nós possam desfrutar de terras suas, demarcadas, preservadas, entendendo a importância o solo em que pisamos, das histórias e trajetórias que o mesmo carrega.

Árvore Mãe, Peixe-Voador e Folhas do Tempo - Auá Mendes (2018)


Você tem uma série chamada “Corpos que Falam”, em que o vermelho é uma das cores predominantes. Como você chegou no conceito dessa série?

Cheguei partindo da reflexão, e do mergulho do mais interno meu e de histórias próximas à minha, relacionada ao corpo, identidade de gênero, orientação sexual, uma espécie de expurgação de vários sentimentos. Sobre como nossos corpos sofrem diversas violências, sobre como as manifestações de uma corpa diante de outra corpa incomoda, que sofre violência, fazendo uma provocação as pessoas que veem nossos corpos outros por sua pluralidade nas suas singularidades. Corpos que transbordam, que ecoam que buscam suas falas seus espaços negados, mostrar da sua existência como objeto de fala e questionamento.

Resistência, Visão e Fala! - Auá Mendes (2018)


O evento Expocuir aconteceu em Manaus e contou com 47 artistas, e entre os convidados estava você. Como é a cena cultural em Manaus e como foi participar desse evento?

A cena cultural é bem diversa, porém os espaços destinados à corpos indígenas, negras e translgb ainda estão em processo de retomada. Não é à toa que se fez necessária tal exposição, onde a discussão central era relacionada a essas corpos diante da sociedade, e participar desse evento fortaleceu ainda mais as minhas construções e ideais acerca do meu corpo e a ajuda de entendimento de outros corpos.


Uma forte característica do seu trabalho é a maneira com que você consegue produzir diversas séries sobre temáticas similares, mas utilizando estéticas diferentes, que contribuem para deixar cada série com uma identidade visual muito marcante. Como é o processo de criação das suas séries?

O processo de criação é muito particular para cada série, pois se faz necessário um mergulho em mim mesma e sobre o que eu penso em prospectar, partindo desse direcionamento, desenvolvo a criação de determinadas obras ou séries. São fragmentos do que não me cabe, do que eu preciso externalizar, do que quero extrair de mim, do meu autoconhecimento, do que vivo, do meu entendimento de corpo território que eu carrego, entendendo minhas cicatrizes e feridas abertas, de que elas tem história e precisam ser faladas, do mais intimo.


Você também foi selecionada para participar do Festival Bahia de Todas as Cores (BTC Graffiti Festival). Qual é a sua relação com o graffiti e quais são as suas principais influências dentro desse estilo?


Bem, a minha relação com o graffitti, partiu da ideia e entendimento que tive, que a minha

arte deve ser comunicada e direcionada aos lugares que saí e que eu fiz parte. Portanto, pensar nas ruas como galeria foi papel fundamental para eu entender para quem de fato eu gostaria de atingir, se eram as galerias com suas artes higienizadas ou a periferia da qual eu saí e faço parte, e também me entendendo enquanto corpo marginalizado, indígena e travesti. E as minhas influências foram mulheres graffiteiras, minha CrewLgbt que faço parte, pessoas indígenas e negras artistas da minha cidade.


Lute como uma indígena, Auá Mendes (2020)


Durante todos os dias abril de 2020, mês da visibilidade indígena, você produziu diversas ilustrações com diferentes personalidades indígenas. De que forma você realizou a seleção das personagens ilustradas e quais são as suas principais referências nas artes visuais?


A seleção se deu pela significância e importância que tais personalidades indígenas tiveram e tem na minha vida, e na minha construção enquanto pessoa indígena. E minhas referências vão para além das artes visuais. São pessoas que estão na minha vida, ao meu redor, na minha família de coração #árvoreandante, coletivo TUPINIQUEEN, AKELA crew, Raquel Kubeo, Joyce Loranne, Mirna Lys, Manauara Clandestina, Rafa Kennedy, Ventura Profana, Castiel Vitorino, Miss Tacacá, entre outras.

@itaynwa, jornalista e fundador da @midiaindiaoficial; @@thaiskokama, artista e artesã; @eunicebaia, atriz e designer de moda.



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