• Bárbara Alves

A responsabilidade de Griô

Atualizado: Jun 20

Inspirado pela cultura hip hop, Griô preserva a sua cultura e conta histórias por meio da animação, do graffiti e do lápis de cor


Na África Ocidental, os griôs são os responsáveis pela preservação de histórias e pela transmissão dos conhecimentos do seu povo. Foi a partir dessa simbologia, que Lyncon Eleutério dos Santos, 21 anos, escolheu o seu vulgo.


Morador da Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, o artista retrata o cotidiano do seu bairro por meio do lápis de cor, que é uma das principais características do seu trabalho. Mas não é a única. Griô também trabalha com o graffiti e animações, e atua como animador na agência digital de conteúdo, Uzumaki.


O hip hop é outra grande influência do seu trabalho. Entre os seus desenhos, há diversas representações de artistas da cultura, além da influência direta da musicalidade no estilo escolhido por Griô para representar os seus personagens.


Confira a entrevista concedida pelo Griô ao Descolonizarte:



Por que Griô?

Eu desenho desde que eu me entendo por gente, desde as minhas primeiras lembranças. Mas a minha primeira manifestação artística mesmo foi no graffiti. Quando eu comecei a pintar na rua, havia a necessidade de um nome, o que a galera chama de “tag” (o nome do grafiteiro). Eu comecei assinando “Cory” (meu apelido de infância aqui no bairro).

Mas um tempo depois, senti a necessidade de ter um nome que parecesse mais comigo, que carregasse meus ideais só de falar. Aí li sobre os Griots, que são antigos mensageiros que tinham a missão de viajar entre as tribos para repassar o conhecimento de gerações e eu sinto que de alguma forma é isso que eu faço sabe? Passar o conhecimento… Só que com uma lata na mão.


O hip hop tem uma grande influência no seu trabalho e no seu estilo. Como você entrou em contato com esse movimento e qual a importância dele no seu trabalho?

O meu trabalho inteiro se baseia em referências negras, isso é óbvio. Desde menino as músicas que eu mais escutava eram samba rock e rap (típica casa de preto favelado), mas o rap foi o que mais me chamou (já pelos sentimentos de revolta que eu tinha). Depois disso veio o graffiti: um dos 4 elementos do hip hop. Depois indo pros eventos, aprendi mais sobre a cultura. Minhas outras referências vem de filmes blaxploitation e outras manifestações artísticas de artistas que conheci ao longo da vida.


Filmes blaxploitation: Brácula (1972), Shaft (1971) e Black Belt Jones (1974)


Um dos trabalhos que você desenvolve é a animação. Qual a potencialidade que você vê nesse formato e como você começou a desenvolver as suas?

Bom, até o momento, eu nunca deixei de estudar. Já estudei gráfica, cursos na área de artes plásticas, audiovisual e ilustração. Em 2017, entrei pro Instituto Criar de TV, Cinemas e Novas Mídias e o que mais se aproximou ao meu ideal de vida, que é viver desenhando, foi a animação. Na minha época de Criar, eu ganhava uma bolsa de meio salário mínimo, juntei essa grana durante um ano e consegui comprar um PC pra fazer minhas animações em casa. Logo depois produzi um clipe sozinho.: “A criação”, do KMT.


Em 2018, um diretor da UZMK comunicação, o lugar onde eu trabalho agora, acompanhava meus trabalhos e me chamou pra fazer trabalhos pontuais para a produtora. No ano seguinte fui chamado de novo pra lá e acabei ficando. Já fazem 2 anos que eu produzo animação na UZMK para clientes da área da saúde, incluindo as redes do Drauzio Varella.


A animação é mágica, né? Ver um personagem seu criar vida, é loco! E querendo ou não é a arte da atualidade. A nova geração já não aguenta mais ver uma imagem parada, as coisas tem que se movimentar, a tela tem que piscar, entende? É um mundo que você tem que lutar muito pra conseguir 1 minuto de atenção.



Você também utiliza muito o lápis de cor nas suas produções e consegue explorar diversas tonalidades e texturas com esse material. Quais foram as suas principais referências para utilizar esse material e como você vê o amadurecimento do seu trabalho com o lápis de cor?

Eu sempre pirei em cor! Em poucos momentos da minha vida eu fiz coisas em PB. E quando eu era menor, lápis de cor era o material mais acessível, vinha no kit de material escolar, dava pra levar na mochila, dava pra desenhar em qualquer lugar.


Depois que eu peguei o jeito foi um caminho sem volta. Eu acho bem mais prático, sabe? Apesar de ser mais trabalhoso e demorado.

Enfim, comprei materiais melhores, mas ainda é minha zona de conforto. E eu vejo pouca gente com essa estética de trabalho, e é o que me mantém fazendo sempre (parece que eu preciso mostrar, sabe? Pode ser loucura minha também). Minha referências de início com esse material são meus amigos (@3__3__8 e @1nn6). Só depois que eu já tinha jeito, que eu comecei a pesquisar mesmo.


Em 2019, você fez um trabalho que falava sobre o vegetarianismo, e no mesmo ano você produziu desenhos retratando algumas frutas. Qual a importância do vegetarianismo na sua vida e como você entrou em contato com ele?

Não comer carne é um lifestyle, além de uma dieta. Acredito que a gente que mora na perifa somos atravessados por vários maus hábitos sem escolha. E um deles é a péssima alimentação (ou uma alimentação com pouca variedade). Ser vegetariano faz parte da minha resistência, da minha saída da Babilônia, a busca por um mundo melhor. Pintei sobre o vegetarianismo, porque é algo que me faz bem e que eu quero poder contar e compartilhar. Essa é a base do meu trabalho.


Griô, 2019


Você também trabalhou com o graffiti e atualmente desenvolve desenhos em menor escala e com uma quantidade enorme de detalhes. Qual a sua relação com a escala das produções e quais as principais diferenças entre esses dois tipos de obras?

Pra mim a relação deles não tá no tamanho e sim na sensação. Eu amo os dois e as vezes fico uma temporada só pintando na rua e outra só trabalhando em casa. Mas acho também que um complementa o outro.


Quando vc faz graffiti é uma sensação de descarrego: você está deixando o que você tem pro mundo. E quando você está em casa ou no ateliê, você guarda coisas, sabe? Escreve sobre elas, reflete...




A sua relação com o território é um dos principais temas dos seus trabalhos recentes. Qual a influência do seu bairro na sua obra?

A minha relação com o bairro sempre foi muito forte e só agora comecei a divagar sobre isso. Estou produzindo uma série chamada “Frestas”, que tem o intuito de mostrar essa relação e decodificar essa vivência em cores.


Griô, 2019/2020


Minha arte é auto biográfica. É sobre onde eu venho, é sobre onde eu quero chegar e o caminho que eu to percorrendo. E querendo ou não, ter o poder de contar a minha história agora é o que me move. Durante muito tempo, outras pessoas contaram a nossa vida de maneira distorcida. Dessa vez eu escrevo, eu falo, eu sou o protagonista.


Quais são as suas metas para o futuro?

Minha meta é poder dar conforto pra quem eu amo.


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