• Bárbara Alves

A acidez de Marlon Amaro

Por meio de uma paleta solar e do estudo de fotografias, Marlon Amaro expõe as violências do ambiente doméstico


O trabalho de Marlon Amaro surpreende pelo contraste ácido entre os temas e as cores. O artista desenvolve uma pesquisa sobre fotografias de famílias norte-americanas entre as décadas de 40 e 60, para retratar diversos tipos de violências presentes no ambiente doméstico e que perduram até os dias de hoje. Mas tudo isso é realizado por meio de paleta de cores extremamente iluminada e colorida que se contrapõe ao temas violentos expostos em cada tela.

Marlon Amaro

É um trabalho que incomoda pela forma sarcástica que expõe e critica as fragilidades de um modelo familiar tido como base para a estruturação da sociedade ocidental, e que pelo mesmo motivo é necessário por chamar a atenção para as agressões promovidas na esfera doméstica. Marlon usa tinta à óleo e técnica mista para realizar suas telas, e além da pintura também trabalha com grafitti, ready-made e modelagem. Prestes a completar 33 anos, Marlon Amaro vive em Niterói, Rio de Janeiro, e enxerga a arte como uma forma de experienciar e questionar a vida.


Confira a entrevista concedida pelo artista ao Descolonizarte:


Como você começou a trabalhar com arte?

Querer trabalhar com arte nunca foi uma escolha consciente, ela sempre esteve comigo. Eu entrei pra faculdade pra ser professor de artes, pois queria mostrar pros meus alunos que a arte está além de saber desenhar. Ela é uma reflexão estética do mundo, é um jeito de experienciar a vida, é questionar a vida. A idéia de ser professor veio do senso comum de que artista passa fome, mas esse curso nunca me completou. Eu via muitos problemas nele e decidi abandonar e entrar para pintura. Entrar neste curso abriu meus olhos para pintura, eu não conhecia nada desse mundo. Eu conheci muito artista importante e entendi porquê eram importantes. Durante minha faculdade eu tive altos e baixos, vontade de largar tudo e simplesmente deixar de existir, mas a vontade de produzir sempre me trazia pra vida. A decisão de me profissionalizar veio quando tive oportunidade de dividir um aluguel de uma sala no prédio da Babel 08 pra ser um pequeno ateliê, nunca tive disciplina para trabalhar em casa, então sair e ir trabalhar pagar aluguel contribuiu para mudar minha visão do que eu fazia eu me tornei mais responsável com minha produção e minha carreira. Assim comecei a ver a arte como forma de me sustentar. Deixei de ser estudante para ser um artista.

Você desenvolve uma pesquisa sobre fotografias de famílias americanas entre as décadas de 40 e 60, que revelam diversas violências que ainda existem no ambiente público e privado. Por qual motivo você decidiu trabalhar com esse tema e quais foram as descobertas que você realizou durante esse período?

Trabalhar usando esse tipo de referência não foi bem uma escolha a princípio. Produzir uma imagem não é tão simples, são muitas variáveis que mudam todo o resultado final de um trabalho, inclusive seu processo de construção. Sempre pintei e desenhei de imaginação e percebi que os assuntos giravam em torno de traumas de infância e como sempre consumi muita imagem, me dei conta que a imaginação não dava conta de tudo e assim comecei a produzir minhas próprias fotografias, mas na época eu não tinha nenhuma pesquisa, não sabia o que queria pintar eu só me expressava. A primeira foto foi da minha família, porém o resultado me fez perceber que não queria pintar pessoas que eu tinha laço afetivo e nem famílias negras porque eu estava começando a sentir uma vontade de criticar o sistema familiar. Por um acaso da vida eu cheguei pelo Instagram até uma página de fotos históricas e passei a printar algumas por espanto de como as tecnologias mudaram e foi aí que percebi potencial nessas imagens vintage, elas estão cheias de potencial pictórico, defeitos, registros do tempo, enfim, coisas que alimentam a vontade de pintar.

Depois de ver muita imagem percebi que eu tinha muitas fotos de álbuns de família norte americana e assim analisando a semiótica delas percebi as relações hierárquicas dos sujeitos, da sua relação afetiva, dos dramas familiares, das coisas que estavam presente na imagem debaixo dos olhos de todo mundo e ninguém percebia e isso me trouxe uma vontade de pesquisar sobre as famílias disfuncionais e abrir através da pintura uma reflexão de como nossa família era o centro dos problemas sociais, como nossa família contribui para perpetuação de preconceito. É importante perceber que toda imagem quer dizer alguma coisa, toda imagem é uma história, uma escolha. Nada está ali por acaso, mesmo inconsciente os objetos ali contidos são atores de uma história. Produzir uma imagem é fazer uma escolha seja ela consciente ou não. Pense no porquê em uma foto de família o abraço é importante. A imagem demonstra afeto, pense na aproximação das pessoas na cena, o que significa aquele único sujeito afastado, segregação? Analisar os valores simbólicos, a estrutura e as relações que os sujeitos ou objetos possuem em uma imagem nos traz uma parte do seu significado, mas acredito que de forma inconsciente todo ser humano faça isso. É uma questão de sobrevivência.

A paleta de cores do seu trabalho é muito solar e contrasta bastante com os temas que você aborda. Como você chegou na definição dessa paleta de cores e por que retratar temas tão pesados com cores que despertam sentimentos contrários?

Minha paleta tenta fazer o mesmo que a apatia faz com a gente. A cor no meu trabalho exerce uma contraste com o que o trabalho quer dizer, ela é um disfarce, uma amenização, uma armadilha, uma apatia. Quando não nos importamos com algo, aquilo deixa de existir ou não atrai nossa atenção. Minha paleta é a visão de mundo das pessoas que não sofrem com o racismo, seu mundo é colorido. A cor sempre desempenha um papel emocional, ela está ligada aos nossos sentidos. Ela é uma experiência psicológica e culturalmente a paleta solar traz uma felicidade, uma suspensão, então a cor no meu trabalho é o olhar racista sobre os dramas vividos pelo povo que sofre com o racismo.


Série Diorama, Marlon Amaro (2020)


O seu trabalho também reúne tinta à óleo a técnicas mistas. Como é o seu processo criativo e quais são as suas principais influências?

Durante a faculdade o que predominava na minha vida era uma busca pela arte acadêmica, uma busca que deixou de fazer sentido quando entendi que todos os acadêmicos eram artistas contemporâneos da sua época e eu estava sendo anacrônico e só assim abri meus olhos para as discussões estéticas de hoje, para o que estava sendo produzido e como estava sendo produzido. O mundo da arte hoje possui menos dogmas técnicos e teóricos, então entrei de cabeça numa busca (tola) de uma pesquisa visual própria. Briguei comigo mesmo para quebrar tudo que aprendi e assim as técnicas mistas vieram para meus processos de construção, misturar materiais diversos sempre será uma forma de se

reinventar. Meu processo se baseia na minha relação com a referência e meus sentimentos. Elas quase sempre são preto e branco, então não faço edições no Photoshop. As mudanças são feitas na própria pintura. É caótico, nem sempre sei no que vai dar, pode dar em nada, mas acredito que a criatividade reside nesse caos. A própria vida de uma fotografia, a passagem do tempo e as relações interpessoais dos sujeitos são minhas referências visuais. Já a música entra como catalisador de sentimentos, ela me traz concentração.

O que significa Diorama e porquê você deu esse nome para a sua série?

Diorama é um tipo de maquete mais realista que representa cenas da vida cotidiana ou histórica para alguma exposição seja pra instruir ou pra entreter. Esse é o título da minha série atual, a pintura é minha diorama da nossa sociedade.

Série Diorama, Marlon Amaro (2020)


O que você desejou transmitir com a série Memorabilia?

A memorabilia foi meu primeiro movimento artístico, foi essa série que me trouxe mais entendimento do que significa ser artista. Essa série me fez pensar nas nossas relações familiares e em como relações tóxicas e disfuncionais nos trazem problemas sociais complexos. Nela eu quis abrir caminho para essa reflexão, pois quando você percebe o modo de como construímos nossas relações, quando você se torna consciente, aí sim você é livre para escolher mudar ou permanecer e perpetuar. Escolher é ser livre.


Série Memorabilia, Marlon Amaro (2020)


Como está sendo produzir durante a quarentena?

A quarentena não mudou muito minha vida, pois já sou meio recluso. Ela só aumentou meu mal estar. A decepção com o ser humano cresceu junto com os óbitos pelo COVID 19, não consigo acreditar em nossa ignorância e é sobre esse ódio que estava "debaixo do tapete" que eu falo no meu trabalho, em como não aceitamos o outro, os diferentes do padrão imposto. Nossa sociedade tem uma dívida com seus filhos e esse sentimento me faz produzir para não enlouquecer ou desistir dessa vida.

Quais são os seus planos para o futuro?

Com essa pandemia o futuro se tornou incerto (como se antes já não fosse). Deixei de planejar uma exposição individual que seria minha primeira e esse era um plano concreto. Agora, um sonho maior é visitar todo o Brasil, nossa África e conhecer alguns museus pelo mundo. Passar raiva vendo objetos ritualísticos que foram roubados pelos colonizadores e tirados do seu contexto como nossos ancestrais foram. Toda viagem é uma jornada, viajar é se jogar no mundo e eu quero conhecer esse grande mundo da arte, ver esses outros lugares que pra alguém como eu, que veio da favela, nunca pensaria que seria possível conhecer.

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